“Easy-peasy-lemon-squeezy”
Cheguei a dizer a um compadre que The Hangover era “a melhor comédia do ano”, mas logo em seguida, chupando um chicabon num momento de introspecção, me imaginei na mesma grande e confortável sala de cinema e com a mesma enorme e satisfeita platéia assistindo não ao filme do Todd Phillips e sim a In The Loop, e logo percebi o quanto fui leviano. Claro, The Hangover is a hell of a movie, mas se a situação descrita fosse mesmo possível de se concretizar e o carinho e a atenção dados ao Zach Galifianakis fossem transferidos sem perda de entusiasmo para Peter Capaldi duvido muito que eu não sairia do cinema profetizando um clássico.
Ok, não posso deixar de creditar o genial Mr. Chow, de longe o personagem mais engraçado dos dois longas, mas como suas referências são puramente visuais e ninguém mais precisa saber que deve assistir seu filme, prefiro deixar registrado toda a finesse e elegância de Malcom Tucker, o responsável pelos melhores xingamentos da história da comédia britânica desde Rowan Atkinson com seu Blackadder. Repare:







Classe!
Agora, se você é um bom rapaz ou uma boa moça e se interessou pelo filme, corra para baixá-lo porque ele dificilmente descerá a linha do equador. After this, se ainda te interessar o maravilhoso mundo da falta de caráter, traição, sacanagem e negociatas às escuras dos bastidores da política britânica, baixe a série da BBC do qual ele foi adaptado: The Thick of It, e logo em seguida me empreste, por que ando me coçando pra assistir. Segundo fontes seguras, a genialidade é a mesma, e os insultos são ainda mais absurdamente psicóticos que os do longa, como pode bem comprovar o trecho abaixo:
Leave Sasha alone. Peace.
Fishing with John
Foi assim: há um par de meses estava curiando a coleção da Criterion, como sempre faço ao menos uma vez por semana, quando me deparei com o DVD de Fishing with John, uma espécie de seriado do John Lurie realizado nos gloriosos anos 90. Depois de procurar sem sucesso ao menos um torrent da peça rara, deixei pra lá e me contentei com o fato de que em 2014 ficaria rico e poderia comprar qualquer coisa com qualquer frete que pudessem cobrar nesse mundo. Como a vida – ah, a vida! – é uma caixinha de surpresas, descubro hoje, sem querer, que TODA a série está no Youtube há mais de um ano – ilegalmente, claro. Mas está lá.
Ao todo são seis episódios, cada um com meia hora de duração e um convidado. Estes são todos os comparsas esquisitões do Lurie: caras como Tom Waits, Jim Jarmusch, Willem Dafoe, Dennis Hopper e Matt Dillon. A graça do programa, ou boa parte dela, está no fato de que nenhum desses ‘caras estranhos’ conhece nada, absolutamente nada de pescaria. A narração a lá Discovery Channel de Robb Webb, então, só ajuda na concepção absurda da coisa. Pra entender direito, basta assistir o primeiro capítulo da série, com o Jim Jarmusch, que exemplifica bem tudo que eu falei, principalmente na cena em que o próprio tenta pegar um tubarão com um pedaço de queijo e uma pistola. É sério:
Todos os episódios da série aqui.
Tô fora
Concordando com o Alexis, o melhor livro que eu não-li este ano foi Leite Derramado, de Chico Buarque. E, de certa forma, o complementando, o melhor filme que eu não-vi foi Budapeste, adaptação do livro homônimo do… Chico Buarque. Como é bom não-ver este filme! Entrar no corredor do cinema e sequer encontrar seu cartaz, rir de tamanho esnobismo do Cinemark e virar para a sala onde passava O Exterminador do Futuro 4: A Salvação. Que maravilha não-ver Leonardo Medeiros interpretando Leonardo Medeiros! Ai ai! Que maravilha esse cinema nacional!
“I’ve still got the dimple, and in the same place”
Rosalind Russell e Cary Grant em ‘His Girl Friday’
São quatro as adaptações para o cinema da peça The Front Page, de Ben Hech e Charles MacArthur: A primeira – e homônima – de 1931, foi dirigida por Lewis Milestone e de cara abocanhou os Oscars de Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Ator para Adolphe Menjou, iniciando uma longa história de amor de Holywood por esta comédia; A última, Switching Channels, de 1988, foi dirigida por Ted Kotcheff e trouxe um elenco de *ASTROS* dos anos 80, como Kathleen Turner (!), Burt Reynolds (!!) e Christopher Reeve (!!!). Tá bom, ela pode até ser o patinho feio do quarteto. Além da óbvia inferioridade em relação às três obras anteriores, ainda se diferencia por apostar numa adaptação mais “livre” da estória, passando-se inteiramente numa estação de televisão, e não na habitual redação de jornal. Mesmo assim, ainda é um filme bacaninha e bem divertido, como seus similares dos anos 80.
Mas, tá, adentremos no assunto principal – que são as duas versões mais conhecidas da fatídica: His Girl Friday, de 1940, dirigida por Howard Hawks, e a também The Front Page, de 1974, dirigida por Billy Wilder. Já comentei por aqui sobre esta última no quase finado Wilder, Wilder, Wilder!!!, mas não sabia na época da existência dessas outras belezas e de toda a história que as cercam. E este é um ponto fundamental pra se entender o filme do Wilder, acima de qualquer outro. Como (acho) que falei anteriormente, o que mais impressiona nesta adaptação é a sua… hm… atemporalidade (tentei não usar essa palavra, pra não parecer boçalzinho, mas é isso mesmo). O que torna o filme do Wilder tão genial quanto o do Hawks é a sua fidelidade total com o timing da comédia da peça original. Falo isso porque em plena década de 70 o cinema já era moçinho o suficiente pra não querer usar as velhas fórmulas dos filmes dos anos 30 e 40. Ele já vinha sofrendo influências do realismo europeu, do humor despudorado do Monty Python e até mesmo das comédias de Woody Allen e Mel Brooks. Não era fácil dar as costas para tudo isso e arriscar-se numa estória nitidamente fora de época.
Nossa sorte é que Billy Wilder é um diretor genial, um cara old school, se-tu-não-sabe. E pra ele não restavam dúvidas que a escolha certa seria engatar a ré e adptar The Front Page da maneira mais fiel possível. Por isso, nada mais natural que a escolha dos protagonistas recair sobre Jack Lemmon e Walter Matthau, seus atores preferidos, e, já na época, cinquentões. Os dois eram um dos poucos que conseguiam resgatar o humor nonsense de tempos passados e exagerar nas piadinhas e expressões sem parecerem ridículos ou forçados. E não há nada mais divertido que essa dupla quando está inspirada. Das não-sei-quantas parcerias deles com Wilder, esta é, de longe, a mais feliz. Seus papéis em The Front Page parecem ter sido escritos por encomenda, e mesmo que um dia eles tenham pertencido à Cary Grant e Rosalind Russell, não seria absurdo admitir preferência pela dupla wilderana.
Bueno. Falemos da versão que tenho menos o que falar. Mas não porque ela é a pior, não!, calma. Deixa eu contar. Tenho pouco o que falar da versão de Howard Hawks porque… como posso dizer?… ela é perfeita. Em todos os sentidos. Grant, Russell, Hawks… Deus! Me sinto até meio abobado ao tentar escrever algo sobre. E, falando sério, criei até vergonha de mim mesmo antes de ter assistido His Girl Friday. Sinto que aquele cidadão que atendia pelo meu nome e se parecia muito comigo não era digno de habitar este mundo. É o que acontece, aliás, quando leio um livro ou vejo um filme acima da média. Crio nojinho das pessoas, ando por aí com um sentimentozinho de superioridade sobre todos que não tiveram contato com tal obra. “Você não viu Charada? Imbecil!”. Levanto, pouso meu chapéu panamá, ponho o charuto na boca e me viro com ar de indignação. “Esse cara não conhece o Cary Grant…”. Então, amigo, entendeu o recado? Filme obrigatório.
*
PS: Fazendo pesquisa de campo descobri que His Girl Friday está TODO no Youtube. E não é naquelas viadagens de 20 partes divididas em 10 minutos cada, não. É o filme completo, de uma vez só, sem intervalos comerciais, e com opção de imagem em High Quality. De forma legalizada, ainda por cima. Duvida? Vê aí. Mas só veja pra tirar a dúvida. Depois trate de alugar o danado e assistir no conforto de sua cama, de frente pra televisão. Filme não foi feito pra se ver no computador, rapaz! Se liga.
I have to fly to Belém
Um amigo meu, o François, acha Notorious (ou Interlúdio, raro título nacional que preserva a chiquesa do original) o melhor filme da primeira fase de Hitchcock em Hollywood (1940-1950). Hei de concordar. Ainda mais quando recordo que o nosso querido Brésil é pano de fundo para a trama em questão. Mas não passa disso mesmo: pano de fundo. Evidente que o Cary Grant, a Ingrid Bergman e o próprio Hitchock sequer pisaram no Rio de Janô. E por essa esnobada, talvez, tenham conseguido manter a classe e a elegância de sempre. Até quando foram obrigados a decorar frases como essa:

e essa:

e essa:

e essa*:

ou até mesmo essa:

Arrepios!
Para terminar, uma homenagem ao grande Mr. Ribeiro, o único personagem brasileiro gente-como-a-gente (Dr. Julio Barbosa não conta, ele é high society) que ganhou citações e até mesmo uma fala no filme de Hitchcock. Repare, ele também está na foto de cima, puxando educadamente a cadeira para Mrs. Bergman se sentar. Vai que é tua, Ribeirão!!!

* As legendas dessa foto estão em português porque o tradutor-estagiário cometeu a infração de confundir a capital do Pará com Berlim nos english subtitles. Mas não se aflinjam, belenenses, o Cary Grant falou que ia à Belém do Pará dançar um calipso sim, e não pra Berlim ¬¬
Ia dizer que as duas semanas fora…
Ia dizer que as duas semanas fora foram pra pôr os deveres em dia, mas não, foi pura preguiça mesmo. E pra não deixar que um bocado de coisa boa que eu vi durante esse tempo passe em branco, segue um resumão de tudo que vale a pena você e sua tia verem/reverem/se esbaldarem:
[1] Sinédoque, Nova York: é um filme tão foda, tão genial que eu não tive colhões suficientes pra escrever sobre. É a maluquice de Charlie Kaufman elevada à quinta potência, e desta vez sem nenhum Gondry ou Jonze ou Clooney pra por um freio nas ideias esquisitas do camarada. E quem não gostou, repare você, deu essa mesma desculpa pra se justificar.
[2] Vestida para Matar: depois de assistir essa pérola oitentista ficou claro como o dia que o Brian de Palma é melhor quando é trash. Dublê de Corpo continua encabeçando a lista do homem, mas esse não fica muito atrás não. PS1: Os Intocáveis é hors-concours; PS2: Ainda não vi Sisters nem Obsession.
[3] Maria Antonieta: é um dos melhores filmes da década e ponto final. Kirsten Dunst + Jason Schwartzman + Asia Argento fazendo miau já eram motivos mais que suficientes para eu achar isso, e com mais uma revisão, na qual descubro uma Molly Shannon e até um Mathieu Amalric ali no meio, tudo ficou mais evidente…
[4] Cape Fear: o original é bem melhor que sua famooosa refilmagem, que já é boa, por duas razões bem simples: 1) Robert Mitchum, que é o cara mais assustador que o cinema já viu; e 2) Gregory Peck, Polly Bergen e Lori Martin (aka Família Bowden), que, puta que o pariu!, vai ser um povo bonito assim lá na Suécia! Se o J. Lee Thompson queria a família mais bonita e perfeita ever ele conseguiu…
[5] Charada: Quero ter filmes inéditos (pra mim, claro) do Cary Grant e da Audrey Hepburn pra assistir até morrer. O que fica cada vez mais difícil de desejar à medida que entro na locadora e não consigo sair sem um ou outro. Da última vez saí com os dois. Juntos. Hmmmm. Mas sério, Charada é um filme muito massa que, além dos citados, ainda conta com o Walter Matthau e com o Stanley Donen no comando.
Você quis dizer: seios
Continuando no assunto Michael Caine, não sei se você reparou, mas prestando muita atenção nas fotos acima dá pra ver o cara e o Denholm Elliot em meio às simpáticas senhoritas. O ensaio é da edição de outubro de 1969 da Playboy, quando ainda existiam campanhas publicitárias de respeito. O produto em questão é o filme Assim Nascem os Heróis (Too Late The Hero).
Via Design You Trust.
Desempoeirando (V)
Como Possuir Lissu (Gambit), de Ronald Neame.
Em um bocado de blogues gringos corre a notícia que os irmãos Coen escreveram o roteiro para um remake de Gambit, filme de 1966 com ninguém-mais-ninguém-menos que Shirley MacLaine e Michael Caine. Mas e a fonte? Águas de Lindóia. E apesar de por enquanto ser só um boato, para aumentar o meu desespero, a Wikipedia ainda espalha a conversa com os seguintes dizeres:
"A remake of Gambit has been mooted for several years. Joel and Ethan Coen completed a screenplay which was expected to be released in 2009. However Colin Firth, who was rumoured to star as Harry Dean, said in September 2008 No! It’s a complete lie. It’s been on IMDB and just sitting there and The Coen brothers have written an absolutely brilliant script. Other personnel lined up for the remake included Hugh Grant, Ben Kingsley, Sandra Bullock and Jennifer Aniston."
É isso mesmo, o elenco é bem desanimador. Mas o filme original é TÃO FODA que a notícia de que poderá ser feito um remake com roteiro dos Coen me faz relevar esse detalhe. E oxalá for verdade toda essa história, que demore mais um pouco pra ser realmente confirmada e acabem esquecendo todos os nomes citados, porque se não, no fim das contas, vai ser só mais uma refilmagem idiota pra dar raiva aos bons. Com a recente notícia de que Joel e Ethan vão refilmar é o faroeste Bravura Indômita, aumentam as possibilidades de adiarem o fatídico projeto pra 2011 (?), como consta no querido IMDB.
By the way, todo esse blablablá foi pra dar uma idéia do quanto bom é o filme em questão. Bom a ponto dos irmãos Coen serem fanzetes e escreverem roteiro pra uma refilmagem. E se esta ainda não é uma razão suficientemente boa pra você querer vê-lo, os dois sujeitos da foto haverão de ser. Porque, afinal, depois de Marilyn e Audrey não havia em Hollywood mulher mais bonita que a Shirley MacLaine. E Gambit é de muitos o maior elogio do cinema à sua beleza. Na história onde um ladrão profissional acha a mulher de rosto idêntico ao da imperadora Lissu, esculpido e transformado numa obra de arte de valor astronômico, uma atriz de beleza incontestável era fundamental, cabendo exatamente à MacLaine o tal ofício.
Michael Caine, então, ainda tá pra fazer um filme ruim. Não hesito em dizer que é favoritão da casa e que foi sim o principal motivo pra ter locado Gambit sem pensar duas vezes. Diferente do que andou dizendo atualmente, aliás, é um dos poucos atores que não vê sua carreira "desaparecer aos poucos", uma vez que a maioria de seus filmes antigos vão sendo refilmados e estragados por gente-como-a-gente (pessoas sem o charme necessário pra igualar o padrão Caine, por assim dizer). Tapa na cara, Jude Law!
Pra terminar com a extensa lista de motivos de Gambit ser bom demais da conta, a culpa final vai pro roteiro assinado por Jack Davies e Alvin Sargent (baseado em estória de Sidney Carroll), já que as manjadas reviravoltas finais dos “filmes de roubo” não são o único e nem o principal motivo de sua genialidade. A virada aqui acontece nos minutos iniciais de projeção, quando um truque aparentemente besta dá toda a graça necessária pro restante da história. Claro, no final ainda vão acontecer dez reviravoltas por minuto, mas nenhuma delas tão inteligente quanto a primeira. Consigo ouvir daqui a gargalhada dos irmãos Coen nessa parte do filme. Juro.
Ghost Town ou ‘Um alô pra Pinguim_SP’

E continuam indo direto para as prateleiras das locadoras as melhores comédias gringas lançadas na última década. Foi assim com Idiocracy, com Year of the Dog, com quase todos os filmes do Will Ferrell e com mais uma pancada de coisas boas saídas de cabeças de caras como o Judd Apatow. Não seria tão assustador se o abate também chegasse a coisas medonhas como os filmes do Adam Sandler e do Eddie Murphy, porque, afinal, já estamos bastante acostumados com esse critério mixuruca de distribuição e exibição que cada vez mais ajuda a pirataria.
A vítima da vez foi Ghost Town, o primeiro longa protagonizado pelo Rick Gervais em terras americanas. Timidamente lançado no final de 2008 em sua terra natal, o filme foi um fracasso de bilheteria e acabou sendo vetado dos cinemas brasileiros pela Paramount. Nem mesmo a presença do melhor comediante britânico evah bastou pra cúpula de jacklipnicks assegurar uma fatia maior do disputado bolo do sistema de distribuição, restando aos verdadeiros apreciadores da coisa ou esperarem o DVD ou procurarem o material na Torrent Store mais próxima.
Daí que eu falei isso tudo pra dizer agora que o filme nem é nada demais… Comparado ao último do Ferrell, por exemplo, não vale um ticket refeição, mas ainda assim está uns bons degraus acima das baboseiras lançadas recentemente – o que justifica a reclamação. E, claro, tem o fator Gervais. Mesmo tendo às mãos um projeto bobo como este – a 63784ª comédia sobre um homem que vê fantasmas – o figura conseguiu momentos de puro brilhantismo, imprimindo ainda que discretamente sua já famosa marca de humor misturado a tristeza e amargura agoniantes.
O melhor é que, apesar de ser creditado somente como ator, fica evidente a participação de Gervais na maioria das tiradas e gags do longa (desde a saída do hospital à piada dos chineses, pra quem viu). Assim, no final das contas, todos saíram ganhando. E David Koepp – o diretor, e um dos maiores blockbusteadores de Hollywood – acabou vendo um projeto fadado à mesmice ganhar pitadas de genialidade. A sequencia final, por exemplo, é coisa fina. De fazer o Jeff Tweedy se orgulhar de ter cedido aquela beleza que é "Please Be Patient With Me". Opa, dá licença agora, vou ali chorar…
Tossir sangue é tão 2006…

Cavalheiros, convenhamos que a sinopse de Gran Torino não é das mais empolgantes. "Um velho ranzinza e xenófobo que acaba se aproximando do vizinho imigrante e o defende das gangues locais" parece material suficientemente generoso pra uma boa dose de clichês. Partindo desse fiapo de trama, pra piorar!, tudo acontece mais ou menos como esperado. Clint defende um china ali e outro acolá, começa a se aproximar de suas famílias e passa a ajudar o garoto que tentou roubar seu cobiçado carro à mando dos bad gangstas. Tudo muito óbvio e rodeado de suspeitas.
Pra nossa sorte, Eastwood fez questão de paparicar a criança de forma quase que excessiva, acumulando as funções de produtor, diretor, ator e compositor da trilha sonora. Com tanto mimo, o resultado passou bem longe do previsto filhote de Karatê Kid. É uma injustiça, na verdade, chegar a comparar o mais recente filme do diretor americano com o nosso passatempo preferido da Sessão da Tarde. Os chavões existem, claro, mas são usados sempre de forma mui sagaz, servindo apenas como pontos de partida para as discussões que realmente importam à trama. Até mesmo o jeito simplista do protagonista mal humorado, turrão e brucutu deixa de incomodar com o passar do tempo, quando a ansiedade e a raiva dão lugar à empatia com o personagem.
Há uns defeitos bem notáveis no filme, ainda assim. E talvez o mais gritante seja a escolha do garoto que Walt (o personagem de Clint) toma como aprendiz. O caso aqui é tão grave que não se trata apenas de umas aulas de interpretação. O rapaz é apagado mesmo, sem graça e carisma. Pode ser, quem sabe, o contraste entre ele e Eastwood, podem dizer os mais empolgados. Mas os mesmos devem lembrar da garota que faz o papel de sua irmã, que APESAR de um deslize aqui e outro acolá, está quase sempre num nível aceitável, convencendo-nos no final das contas.
Numa escala bem menor, outro ponto que me incomodou foi a utilização excessiva da regrinha campo-contracampo retirada dos manuais de classicismo que Eastwood tanto folheia. Há uma cena de Walt na banheira, por exemplo, que chega aos píncaros da cafonisse cinematográfica. Tudo bem! Tudo bem! Esfrio a cabeça e volto a prestar atenção somente à história. Afinal, é isso o que importa no final das contas, não é? E, sendo justo, ao lado dos irmãos Coen e de PT Anderson, Clint Eastwood domina com tanta propriedade a pobre da narrativa clássica que em tempos macabros como estes, onde ela vai se esmilinguindo a passos largos, ficamos satisfeitos e enormemente felizes com filmes apenas corretos como Gran Torino.
